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Indígenas vivem epidemia de diabetes e sofrem com falta de assistência

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Indígenas do povo Xavante na Aldeia São Gabriel, no Mato Grosso
Marcelo Auge/Um Diabético

Indígenas do povo Xavante na Aldeia São Gabriel, no Mato Grosso

Nos últimos dias, uma missão oficial do governo federal no território Yanomami, em Roraima , encontrou crianças e idosos com desnutrição severa. Os técnicos do Ministério da Saúde fazem atendimentos na região desde o dia 16 de janeiro. Eles encaminharam as crianças para tratamento de saúde em Boa Vista.

O paciente resgatado mais novo, de 18 dias de vida, foi levado ao hospital com quadro de pneumonia, e chegou a ter cinco paradas cardíacas. A mãe da criança percorreu três horas até chegar à Unidade Básica de Saúde Indígena (UBSI) no polo-base de Surucucu.

“Um dado público é que, nos últimos 4 anos, 570 pessoas Yanomamis morreram decorrente da contaminação por mercúrio por conta do garimpo ilegal. Agora, na casa de atenção à saúde indígena, tem 715 indígenas yanomamis em desnutrição absurda”, disse Sônia Guajajara, ministra dos Povos Originários.

A situação grave em terras Yamomami é uma crise humanitária e de saúde pública e contrasta com uma outra situação envolvendo os povos originários.

Tragédia anunciada “Eles estão abandonados”. Essa foi a minha conclusão ao deixar as terras indígenas, depois de passar dois dias com o povo Xavante em setembro de 2021. Uma população que estava morrendo, aos poucos, por conta de uma doença crônica que se tornou uma epidemia nos últimos anos entre eles. A anciã, indígena mais velha da aldeia, disse que “nós” tínhamos levado essa doença para eles. “O homem branco nos trouxe essa doença e os xavantes já morreram tudo”. Durante o tempo em que estive com eles, percebi o que aquela idosa, com mais de 80 anos, com dificuldade para enxergar, quis me dizer no dialeto xavante.

A perda da visão é uma consequência do diabetes mal controlado. Ela também foi diagnosticada com a doença que afeta a produção de insulina e faz a glicose subir no sangue, assim como o filho e os netos. Ela não tem ideia e nem apoio adequado para tratar o diabetes.

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E o problema é básico. Eu me lembro bem do que notei ao olhar de dentro de uma terra indígena para fora. Ao redor da Aldeia São Gabriel, a mata ainda tenta renascer depois do desastre ambiental. Pouco antes da nossa chegada, um incêndio consumiu tudo na floresta. E não foi só no mato. Na aldeia, três ocas grandes foram destruídas pelo fogo.

A anciã da aldeia Xavante tem perda da visão em razão da diabetes
Marcelo Auge/Um Diabético

A anciã da aldeia Xavante tem perda da visão em razão da diabetes

Sem conseguir mais tirar da mata o sustento para sobreviver, os xavantes dependem de doações que chegam da cidade e da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas). São Cestas básicas. Essa mesma que encontramos no supermercado.

Diante disso, as refeições deixaram de ser “naturais”. Sucos artificiais, bolachas recheadas, bolos, salgadinho e até refrigerante estão estocados nas poucas ocas que restaram, em uma aldeia que fica cerca de 50 quilômetros da cidade.

Com esse “alimento”, eles estão conseguindo evitar a fome, mas estão ganhando uma doença crônica, que, se não for tratada da forma correta, pode matar a pessoa aos poucos. Sim, o diabete não tratado, no caso deles o tipo 2, pode causar problemas no coração, nos rins, provocar amputação e a perda da visão. Tudo o que vem acontecendo nos últimos anos por lá.

Tudo que eles temem, mas não conseguem evitar. A situação se agravou durante a pandemia.

Tratamento precário No memo dia em que cheguei na Aldeia São Gabriel, uma equipe técnica da Secretaria Especial da Saúde Indígena (Sesai) também esteve no local. São vistas rotineiras, mas com pouca estrutura para ajudar. Em um povo em que seis em cada dez indígenas convivem com o diabetes, não ter tira para medir a glicose é algo sério. Sim, não tinha. Desta forma, o que os técnicos faziam eram averiguar a pressão arterial. O tratamento até então se resumia a isso. Quando o indígena estava muito mal, era encaminhado para o posto de saúde mais perto. Mas isso não é algo rápido.

Parte do entorno da aldeia foi devastado pelo fogo
Marcelo Auge/Um Diabético

Parte do entorno da aldeia foi devastado pelo fogo

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Eu procurei a secretaria da Sesai e do Ministério da Saúde em 2021, mas ninguém quis dar uma resposta.

Samira Tsibodowapré é uma das lideranças da aldeia e luta para que o seu povo seja assistido. “Eu observo que falta muito para que essas pessoas com diabetes tenham acesso à informação e principalmente tratamento adequado”, lamentou.

Foi por meio dela que conseguimos entrar em terras xavantes. Samira, na época, tinha perdido o pai por conta de complicações do diabetes. Há poucos meses, ela também recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 2.

Todos esses detalhes que contei está registrado no documentário “Retrato: O Brasil que depende de insulina”, disponível no canal do Youtube “Um Diabético”. Vale a pena conferir.

Dados sobre o povo Xavante

Os Xavantes somam cerca de 22.000 pessoas, abrigadas em diversas Terras Indígenas localizadas na região centro-oeste do Brasil, principalmente no estado do Mato Grosso.

Pesquisadores da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp) e da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP avaliaram 157 indígenas dessa etnia, que foram submetidos a exames da retina, antes da pandemia de covid-19. Os estudiosos constataram uma alta prevalência de diabete tipo 2 e de uma disfunção oftalmológica causada pela doença.

Os resultados do estudo foram publicados na revista Diabetes Research and Clinical Practice, da Federação Internacional de Diabetes.

Um estudo anterior com 932 xavantes indicou que 66,1% apresentavam síndrome metabólica, definida como uma condição na qual os fatores de risco para doenças cardiovasculares e diabetes mellitus ocorrem ao mesmo tempo.

Mais notícias e informações sobre diabetes, acesse o Portal Um Diabético .

Fonte: IG SAÚDE

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Ganhar ‘likes’ nas redes sociais estimula a área de recompensa do cérebro humano

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Ganhar ‘likes’ nas redes sociais estimula a área de recompensa do cérebro humano
Redação EdiCase

Ganhar ‘likes’ nas redes sociais estimula a área de recompensa do cérebro humano

Em tempos de redes sociais, um click “gostei” promove uma ação positiva e motivacional no cérebro de quem curte e recebe a curtida. Mas, todo cuidado é pouco com essa dinâmica de relacionamento, em momentos contemporâneos, vulneráveis ao esvaziamento dos sentimentos humanos.

Casais se conhecem rápido demais e logo partem para mudar o status do relacionamento nas redes sociais. Com isso, esquecem de conhecer melhor o parceiro, ver até onde existe compatibilidade, saber se estar num relacionamento saudável e se é  isso mesmo que se deseja. 

Essas questões ficam para daqui algumas semanas ou meses. São líquidas as relações de hoje em dia, segundo o sociólogo Zygmunt Bauman. E em um click, torna-se muito fácil conquistar, acabar, excluir, bloquear pessoas como um produto descartável. 

A falsa sensação de estar rodeado de amigos

O fato é que as pessoas possuem muitos “amigos” nas redes sociais e continuam solitárias esperando que alguém “curta” o que foi postado. Uma explicação à luz da neurobiologia , revela que o cérebro humano precisa de determinados estímulos que influenciam a autoestima e a aceitação em um determinado grupo de pessoas. O humano é um “animal social” que precisa intencionalmente de elogios como fator estimulante para ativar o sistema de recompensa emocional.     

Nosso cérebro “adora” novidades. Mas, no fim das contas, ele seleciona o que é importante para depois guardar essas informações de verdade. Ou seja, ele trabalha em duas etapas. Acontece que, por conta dessa primeira etapa ser mais prazerosa e frenética, liberando compostos químicos que satisfazem o corpo, sempre queremos involuntariamente nos manter conferindo novidades e acabamos sem tempo para guardarmos o conteúdo na segunda etapa. E essa é a especialidade da internet, produzir informações rápidas e inovadoras. 

Redes sociais estimulam o cérebro

As redes sociais influenciam nossos sentidos biológicos e estimulam o cérebro humano a continuar “clicado e ligado”. Esse processo acontece devido ao prazer estabelecido na função cerebral, como acontece nas probabilidades de sobrevivência, por exemplo, comer comidas calóricas, dormir bem, aprender novas habilidades, conseguir apoio social, fazer sexo. 

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O cérebro pode ser estimulado por qualquer atividade ou informação prazerosa, mesmo sem ter a função de sobrevivência, por exemplo, jogos, músicas, filmes, livros, danças, redes sociais, sendo especialmente superativado por drogas como anfetaminas e heroína. 

De fato as redes sociais provocam modificabilidade cerebral , esse fenômeno é incontestável, pois, evidências científicas demonstram que conexões neuronais são estimuladas por determinados fatores neurotróficos que estabelecem novas rotas alternativas nas células neuronais do córtex cerebral.

Consequências dos prazeres imediatos no cérebro 

Entre 5% e 10% dos usuários de internet são incapazes de controlar a quantidade de tempo que passam on-line. Apesar de ser uma dependência psicológica, estudos mostram que há deficiências cerebrais parecidas com as provocadas por dependências químicas. 

Regiões do cérebro que controlam as emoções, a atenção e a tomada de decisões são afetadas, porque as redes sociais oferecem respostas imediatas com pouco esforço. E quanto mais respostas imediatas se tem, mais rapidamente se quer resolver os problemas, e é o mesmo processo que acontece quando há consumo de drogas. Prazeres imediatos.

Papel das redes sociais na produção de hormônios 

As redes sociais também desencadeiam uma liberação de dopamina, o hormônio do bem-estar. Em exames de ressonância magnética, cientistas descobriram que as áreas de bem-estar dos cérebro são muito mais ativadas quando as pessoas falam sobre si mesmas ou expressam opiniões, em vez de ouvir os outros. Em uma conversa face a face com outra pessoa, cerca de 30% a 40% do tempo é destinado a falar sobre nós mesmos. Na internet, o número sobe para 80%. 

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A neurobiologia explica que as ações cerebrais diante das curtidas nas redes sociais podem aumentar os níveis de ocitocina, conhecida como “hormônio do amor” , que estimula sentimentos como empatia, generosidade e confiança, e tem altas quando o indivíduo está apaixonado.

Estudos neurocientíficos revelam que quando o indivíduo compartilha informações pessoais na internet, ele estimula as  regiões do cérebro envolvidas na conectividade, como o córtex pré-frontal medial, amígdalas cerebrais e precuneus – regiões do cérebro envolvidas na autorreflexão e em determinados aspetos da consciência emocional.

Cuidado com a exposição excessiva nas redes sociais

O importante é encarar a realidade e as emoções presentes nas nossas vidas para evitar exposições excessivas e desnecessárias nas redes sociais.  Também vale alertar que podemos ter atividade emocional no nosso cérebro de vários aspectos: proativo, vítima, atento, desligado, observador e desnorteado. Todos nós temos um pouquinho de cada traço, e o que influencia o comportamento humano são as medidas que tomamos frente às mudanças efetivas em nosso dia a dia.   

O ser humano vive em busca de aceitação

As emoções e os sentimentos fazem parte de nossas vivências e são importantes na solução de problemas, no raciocínio e no funcionamento inteligente, em relação às questões que o ser humano se depara em sua vida, num constante equilíbrio/desequilíbrio em busca de uma homeostasia.  

O ser humano reage ao detectar um desequilíbrio no processo de vida e, ao perceber este desequilíbrio, procura corrigi-lo, no sentido de adaptar-se, dentro dos limites da biologia humana e do ambiente físico e social. Na verdade, o ser humano quer se sentir querido, produtivo e aceito nas suas relações, sejam elas reais ou virtuais. Mas, todo cuidado é pouco quando o envolvimento emocional fica por conta das redes sociais. 

Por Marta Relvas 

Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Neurociência e Comportamento, Psicanalista, Psicopedagoga, Especialista em Neurofisiologia Humana, Anatomia Humana e Bioética. Entre os livros lançados estão “Sob o comando do cérebro” e “Cérebro – Contextos, nuances e possibilidades”, publicados pela Wak Editora. 

Fonte: IG SAÚDE

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